ESMALTES METALICOS

Lucie Rie

Esmaltes metalicos são artísticos não funcionais.  

Há uma sedução antiga na cerâmica, que acompanha a hgumanidade. Fazer o barro brilhar como ouro, prata ou bronze. Durante toda a evolução da humanidade esse desejo foi parcialmente suprimido com duas técnicas distintas. Vale a pena conhece-las, antes de explorar esse caminho.  

Uma química em excesso

Quando falamos sobre Esmaltes metalizados, dos quais seu brilho é muito semelhante a um metal, estamos falando sobre saturação. Sua formulação é muito simples, basicamente proporcionamos a fusão de quantidades significativas de óxidos metálicos como Manganes, cobre e cobalto. Você exagera na dose de metais – cerca de 20-60% de manganes – introduzindo em menores quantidades cobre e cobalto para obter um efeito um pouco mais “cristalizado” – esse tipo de esmalte pode ser queimado em oxidação e redução, obtendo belissimos efeitos muito atraentes a humanidade. 

Aula 9 - Metavitreo 2 - Curso extensivo de Formulação

É tudo uma questão de dose! mesmo príncipio de quando vocÊ joga muito açucar na calda e ela começa a cristalizar. Só que vocÊ faz isso , com altas doses de óxidos metalicos.   

Esmaltes metálicos da Mesopotâmia

HIDEAKI MIYAMURA

Já o efeito metálico da Mesopotâmia é completamente diferente! tanto na química como na técnica de obtenção do brilho peculiar.  Os esmaltes obtidos no Séc IX, os ceramistas não colocavam uma carga excedente de metal. Eles pegavam a peça ja pronta, esmaltada, colocavam uma fina superfície de sais de prata e cobre e queimavam novamente em baixas temperaturas, em um ambiente redutor – ” faminto por oxigênio” – o que acontecia era uma arquitetura a nível atômico, os íons de metal migravam para a parte vítrea do esmalte e se organizavam em nanopartículas minúsculas, em uma escala atômica – Essa nanoestrutura, e não a quantidade excessiva de metal – que produzia os belíssimos lustres islâmicos – cerâmicas com brilho metálico e iridescência. Pouquíssimo metal, mas com os íons organizados de uma forma muito específica.       

Egito Sec XI

Ou seja, um é quantidade bruta de metal o outro é arquitetura atomica a níveis nanometricos. O efeito pode ser muito parecido, mas a técnica tem diferenças estrondosas. 

A metalurgia, o berço do vidrado

Para entender por que essas técnicas nasceram onde nasceram, vale voltar um pouco mais no tempo — até a própria metalurgia.

Muito antes de qualquer forno cerâmico saber imitar metal, o ser humano já sabia fundir metal de verdade. Cobre, chumbo, prata e ouro já eram trabalhados havia milênios quando os oleiros islâmicos começaram a brincar de fazer cerâmica parecer metal precioso. E não é coincidência: a técnica do lustre nasce justamente numa cultura onde existia uma restrição — o Islã desaconselhava fortemente o uso de vasilhas de ouro e prata verdadeiras à mesa. O ceramista, então, resolveu um problema social com química: se você não pode comer num prato de ouro, por que não comer num prato que parece ouro?

Essa gambiarra genial — pegar o conhecimento de fundição e transportar seu resultado visual para dentro do forno cerâmico, sem usar o metal em si — é o berço verdadeiro do esmalte com efeito metálico. Da Mesopotâmia a técnica viajou para o Egito, depois Síria e Irã, atravessou o Mediterrâneo até a Espanha mourisca, e finalmente chegou à Itália renascentista, em Gubbio, onde ganhou o nome que usamos até hoje: lustro.

Séculos depois, na Europa dos séculos XVII e XVIII, um caminho mais simples e menos alquímico se consolidou: em vez de imitar metal por nanotecnologia acidental, bastava jogar muito manganês num esmalte de base — e assim nasceram os esmaltes marrons brilhantes, quase metálicos, que ficaram conhecidos séculos depois como esmalte Rockingham, usados em bules e potes de cozinha ingleses e americanos.

Duas rotas, dois séculos de distância, dois princípios químicos opostos — mas a mesma vontade humana antiga: fazer o barro se vestir de metal.

Informaçoes sobre Toxicidade

É muito comum, no meio cerâmico, ouvir falar sobre a silicose — doença respiratória causada pela inalação excessiva de micropartículas de sílica. A sílica é o óxido mais abundante da crosta terrestre, chegando a compor até 80% de sua camada externa, e ficou “famosa” por doenças ocupacionais em trabalhadores expostos cronicamente a névoas de poeira de sílica, como mineiros e trabalhadores de pedreiras e marmorarias. No Brasil, um estudo com mineiros de ouro de Nova Lima (MG) acompanhados entre 1995 e 2011 encontrou silicose confirmada em 19,7% dos 1.020 ex-trabalhadores avaliados — sendo que, entre os admitidos para trabalho subterrâneo antes de 1950, a prevalência chegava a 57,9% .

A doença é incurável, mas evitável — a mesma pesquisa de Nova Lima mostrou que, entre os trabalhadores admitidos após 1990, quando as medidas de proteção melhoraram, não houve nenhum caso registrado entre os admitidos após 1990, não houve registro de casos.

Mas você já ouviu falar do Manganismo? 

A história começa em 1837, na Escócia, quando um médico chamado James Couper percebeu algo estranho em trabalhadores que moíam um minério chamado pirolusita. Eles começavam a andar diferente, a falar diferente, como se o corpo, aos poucos, deixasse de obedecer. Era o primeiro relato médico do que hoje chamamos manganismo — uma intoxicação crônica que se instala devagar, silenciosa, e que se parece de forma assustadora com o mal de Parkinson: tremores, rigidez, lentidão nos movimentos, dificuldade de fala.

Decadas depois o Dióxido de Manganes começa a circular no meio dos ceramistas.

O manganês entra no corpo do ceramista principalmente pela respiração, em dois momentos distintos: ao pesar e misturar o pó seco do óxido, quando partículas finas ficam suspensas no ar e são inaladas sem que se perceba, e na queima, quando o forno libera fumos metálicos que continuam sendo respirados, especialmente em ateliês mal ventilados. Diferente de outros venenos, o manganês inalado vai quase direto para o sangue e se acumula devagar no cérebro, ano após ano, sem sintoma algum no começo — até décadas depois, quando pode se manifestar como tremores, rigidez e lentidão de movimento. Foi o que viveram, cada uma por sua conta, as ceramistas Jane Watkins e Lanyon, diagnosticadas em 1992 com um quadro parecido com o mal de Parkinson após anos usando dióxido de manganês em barbotinas e esmaltes; já o boato mais famoso do meio, sobre a morte de Hans Coper em 1981 ter sido causada pelo manganês, nunca foi confirmado. São casos reais, mas isolados e pouco divulgados — não existem estudos científicos formais sobre ceramistas como grupo de risco, e é justamente esse silêncio que torna o perigo mais traiçoeiro. Por isso a proteção precisa cobrir os dois momentos de exposição: no manuseio do pó seco, uma máscara com filtro para partículas (PFF2/N95) já ajuda bastante; já na queima, o problema é outro — fumo e vapor metálico, não poeira sólida —, e o que realmente protege é a exaustão do forno funcionando corretamente, complementada, na ausência dela, por uma máscara com filtro específico para vapores/fumos metálicos.

LIXIVIAÇÃO

O esmalte metálico (ou metalizado) de estúdio é feito com uma carga muito alta de óxidos colorantes — manganês (30–50% de MnO₂), cobre ou cobalto — misturados a uma frita fundente de baixo ponto de fusão. Diferente do lustre histórico islâmico (século IX), que usava nanopartículas de prata/cobre numa segunda queima de baixa temperatura, o metalizado contemporâneo é feito numa única queima, e o efeito espelhado vem da saturação extrema do vidro: tanto óxido é adicionado que a rede vítrea não consegue incorporar tudo estruturalmente, e esse excesso “livre” na superfície é o que cria o brilho metálico — o mesmo princípio de açúcar cristalizando numa calda supersaturada ao esfriar.

Essa mesma saturação, porém, é o que torna o esmalte quimicamente instável e propenso à lixiviação: o óxido metálico não incorporado à rede fica disponível para migrar para fora em contato com ácido, álcool ou uso repetido. Por isso, esmaltes metalizados são classificados como não-funcionais por definição — não devem ser usados em superfícies de contato direto e frequente com alimento.

Para avaliar essa instabilidade, o teste caseiro de referência é a imersão em vinagre a 4% por 72 horas (não 24h) — tempo necessário para que, na ausência de equipamento de laboratório, a reação química lenta e progressiva se torne visível a olho nu (opacificação, mudança de cor, resíduo no pano). Mesmo assim, um esmalte metalizado que “passa” nesse teste não está automaticamente aprovado para uso alimentar — o teste caseiro detecta apenas lixiviação grosseira, não os níveis baixos que só um laboratório certificado consegue medir.

Soma-se a isso um risco adicional, pouco discutido no meio: a toxicidade do manganês em pó e de seus fumos durante a queima, associada ao manganismo — doença neurológica crônica, parecida com Parkinson, já relatada por ceramistas como Jane Watkins e Lanyon (1992), embora ainda sem estudos epidemiológicos formais dedicados a essa categoria profissional.

Na prática, o esmalte metalizado deve ser tratado como peça decorativa, com manuseio do pó seco protegido por máscara PFF2/N95 e queima com exaustão adequada do forno — nunca como opção segura para utilitários de uso diário.

Bibliografia Principal

Manganismo — casos clínicos

Iqbal M, Monaghan T, Redmond J. Manganese toxicity with ephedrone abuse manifesting as parkinsonism: a case report. Journal of Medical Case Reports. 2012

Alikunju M, Misiriyyah N, Iqbal SS, Khan M. Manganese Neurotoxicity as a Stroke Mimic: A Case Report. Cureus. 2023

Evans GR, Masullo LN. Manganese Toxicity. StatPearls . Treasure Island : StatPearls Publishing; 2023.

Exposição ocupacional e vias de entrada

Kippler M, Oskarsson A. Manganese – a scoping review for Nordic Nutrition Recommendations 2023. Food & Nutrition Research. 2024

Michalke B, Fernsebner K. Manganese Toxicity Upon Overexposure: a Decade in Review. Current Environmental Health Reports. 2015

Relatos de ceramistas

Watkins J. Manganese and Parkinsons. Disponível em: digitalfire.com

Blodgett E. Potters and Manganese Toxicity. Disponível em: digitalfire.com


Termos principais para o PubMed

 
manganism
manganese neurotoxicity
manganese-induced parkinsonism
occupational manganese exposure
manganese inhalation exposure

Obs: literatura médica formal é robusta para soldadores e mineiros, você não encontra estudos epidemiológicos dedicado, com grupo controle e metodologia clínica, especificamente sobre ceramistas de atelies como população de risco — somos um grupo ocupacional pouco estudado formalmente, apesar da exposição real existir e ser reconhecida por guias de segurança de instituições de ensino de arte.

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