Por que não indico esmaltes macrocristalinos em áreas de contato com alimentos?

Essa é uma perguntas que mais recebo de alunos: “ Por que você não indica esmaltes macrocristalinos para utilitários?”

A dúvida é muito legitima — afinal, são esmaltes visualmente deslumbrantes, com formações cristalinas únicas e muito valorizadas e atrativas na cerâmica artística. Mas, quando o assunto é uso em peças que terão contato com alimentos , a análise precisa ir além da estética.   

Estrutura e formulação: o ponto de partida.

Esmaltes macrocristalinos são desenvolvidos para favorecer o crescimento de cristais durante a queima. Para isso acontecer, a sua formulação apresenta características específicas: 

  • Baixo teor de alumina (A2O3) 
  • Alto teor de fundentes ( como ZnO e álcalis) 
  • Elevada fluidez em altas temperaturas 
 
Esses fatores são fundamentais para permitir a mobilidade necessária à cristalização. No entanto , essa mesma configuração tem implicações importantes do ponto de vista químico. 

Durabilidade química : Eis a questão

Na ciência dos materiais, a estabilidade de um esmalte esta diretamente ligada à sua estrutura vítrea. Sistemas mais estáveis possuem maior integridade estrutural da rede vítrea (força), geralmente associada à presença de sílica e alumina.

No caso dos esmaltes macrocristalinos :

  • A redução de alumina diminui a estabilidade da rede vítrea ( imagine uma parede de tijolos sem cimento) 
  • O excesso de fundentes aumenta a mobilidade iônica ( rede fraca) 
  •  A presença de cristais gera uma estrutura heterogênea
 
Esse conjunto leva a uma tendência à menor durabilidade química, conceito amplamente discutido em áreas como Durabilidade química de vidros e Corrosão de vidros. 

"Mas passou no teste de lixiviação"

  • Outra duvida muito comum, levantado por alunos é a aprovação em testes normativos. Aqui é importante esclarecer o alcance dessas analises. 

A norma ISO 6486 avalia a migração de chumbo (Pb) e cádmio (Cd) em condições específicas.

Ou seja:

  • Não avalia outros elementos presentes no esmaltes como Ni, Co, Zn, Li, Mn, entre outros. 
  • Não mede a durabilidade química e física
  • Não simula uso prolongado com diferentes tipos de alimentos. 

 

Portanto, estar dentro da norma não significa que o esmalte seja químicamente estável em sentido amplo. 

Lixiviação do Niquel (azul) em contato com meio acido por 72hrs

Conclusão:

Minha posição como professora é baseada em critérios técnicos e na literatura: 

Esmaltes macrocristalinos são sistemas desenvolvidos com o foco estético , cuja formulação está associada a menor estabilidade química quando comparada a esmaltes utilitários tradicionais . 

Por isso, eu não indico seu uso em peçãs destinadas ao contato alimentar contínuo. 

Não se trata de proibição, mas de responsabilidade técnica. A escolha de um esmalte para o uso utilitário deve considerar não apenas sua aparência ou conformidade com testes mínimos, mas sua natureza estrutural e comportamento ao longo do tempo.

Esmaltes macrocristalinos têm seu lugar importante na cerâmica artística. Mas, quando o assunto é desempenho quíimico , resistência, é necessário reconhecer suas limitações. 

E é exatamente isso que ensino aos meus alunos. 

Referências
NORTON, F. H. The control of crystalline glazes. Journal of the American Ceramic Society, v. 20, n. 7, p. 217–224, 1937.
PAUL, A. Chemical durability of glasses: a thermodynamic approach. Journal of Materials Science, v. 12, p. 2246–2268, 1977.
DOREMUS, R. H. Glass Science. 2. ed. Nova York: Wiley, 1994.
HENCH, L. L. Characterization of glass corrosion and durability. Journal of Non-Crystalline Solids, v. 19, p. 27–39, 1975.
CARTY, W. M.; LEE, H. An Overview of Glaze and Glazing Safety. Alfred University, NYSCC.
DIGITALFIRE REFERENCE LIBRARY. Glaze Durability. Disponível em: digitalfire.com.
ISO 6486-1:2019. Ceramic ware, glass-ceramic ware and glass dinnerware in contact with food — Release of lead and cadmium — Part 1: Test method.
 
 

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