O Mistério do Esmalte que craquela cru!
Se já passou algum tempo no ateliê de cerâmica, certamente já viveu este momento: aplica o esmalte numa peça de biscoito, espera que ela seque e, passados alguns minutos, a superfície começa a assemelhar-se a um lago seco, cheio de fendas e pequenas “ilhas” de esmalte.
O craquelado em cru (ou retração de secagem) é um dos fenómenos que mais gera dúvidas entre os ceramistas. Será que devo retirar o esmalte da peça e começar de novo? Ou será que a queima vai resolver tudo?
Neste post, vamos dissecar as causas, os perigos e as soluções para este “caso clínico” da cerâmica.
O que é, afinal, o craquelado no esmalte cru
Diferente do craquelado (aquelas microfissuras que ocorrem após a queima), o craquelado em cru acontece durante a evaporação da água, antes sequer de a peça entrar no forno.
Quando o esmalte é aplicado, ele é uma suspensão líquida. O biscoito poroso absorve a água rapidamente. Se a camada de esmalte não tiver elasticidade ou adesão suficiente para encolher enquanto seca, ela racha.
Abaixo vídeos cedidos pela ceramista Leila Castelo:
Antes e depois
As 3 Causas Principais do Craquelamento Precoce
Causa 1: A Camada “Gorducha” Demais
Se você é iniciante na cerâmica, já deve ter pensado: “Quanto mais esmalte eu passar, mais cor e brilho a peça vai ter, certo?”. Errado! Na verdade, esse é o erro mais comum.
Vamos entender por que a Camada Excessivamente Grossa faz o seu esmalte rachar antes mesmo de ir ao forno.
O que acontece na prática?
A Sede da Peça: A sua peça (que já passou pela primeira queima, o biscoito) está “sedenta”. Quando você mergulha ela no esmalte ou passa o pincel, ela suga a água do esmalte instantaneamente.
O Encolhimento: Ao perder água, o esmalte diminui de tamanho (ele retrai).
A Briga de Forças: Se a camada está fina, ela consegue se segurar nos poros da peça enquanto encolhe.Se a camada está muito grossa, a parte de cima do esmalte “puxa” com tanta força que a base não consegue segurar. É como tentar vestir uma camiseta três números menor: o tecido estica até que… Há! Ele rasga.
A Analogia da Lama no Sol ☀️
Imagine uma poça de lama. Se a camada de lama for bem fininha sobre o asfalto, ela seca rápido e fica “grudada”. Agora, pense naquelas poças fundas de barro: quando o sol bate e a água sai, a lama cria aquelas rachaduras enormes e profundas, certo?
O esmalte se comporta exatamente igual. Ele é composto por minerais e água.
Causa 2: Secagem muito rapida por biscoito muito poroso
Se o biscoito foi cozido a uma temperatura muito baixa ou se a pasta é naturalmente muito porosa, ele irá absorver a água do esmalte de forma instantânea.
O choque: Esta sucção ultra-rápida não permite que as partículas de esmalte se organizem de forma plana sobre a peça. O esmalte “assenta” de forma caótica e sob tensão, facilitando o aparecimento de fendas mediatas.
Causa 3: Formulação ( para formuladores)
A retração do esmalte ainda seco acontece, principalmente, por causa de ingredientes muito finos e “sedentos”, como certas argilas plásticas (bentonitas), boratos e o óxido de zinco. Como esses materiais são formados por partículas minúsculas, eles precisam de muita água para virar uma pasta (para preencher os interstícios entre partículas submicrométricas)..
O problema surge durante a secagem: conforme essa água evapora, ela cria uma espécie de “sucção” que puxa as partículas de esmalte umas contra as outras (pressão capilar negativa nos meniscos), forçando-as a se aproximarem. Se a quantidade desses materiais finos for exagerada, o esmalte encolhe mais do que consegue suportar — já que, nessa fase, ele ainda é apenas um pó seco sobre a peça, sem a força do vidro que só virá no forno.
O resultado são rachaduras (o chamado crawling). Para evitar isso, o segredo é equilibrar a receita: trocamos parte das argilas plásticas por materiais que não encolhem (com o caulim já calcinado). Esses componentes funcionam como um “esqueleto” rígido, que diminui a necessidade de água e impede que o esmalte se deforme enquanto seca.
Obs: Para FORMULADORES, o segredo não está apenas em quais materiais usa, mas na física das partículas.
Possíveis correções :
Estratégia A: Ajustando o CMC (Custo Baixo)
Se você prefere o CMC, precisa ser preciso. Não use “no olho”.
- Mantenha a Densidade: Use uma seringa para garantir que seu esmalte esteja entre 1.45 e 1.48 SG.
- Use a Proporção de Ouro: Adicione cerca de 0,5% de CMC em pó em relação ao peso do esmalte seco.
- Frescor é tudo: Use CMC preparado há menos de uma semana ou use conservantes (como o óxido de cobre).
Estratégia B: Migrando para o Veículo (Já preparado)
Se você busca o acabamento de esmaltes importados (como Amaco ou Botz), o veículo é seu melhor amigo.
- Substituição: Use o veículo para hidratar o seu esmalte em pó no lugar da água.
Aplicação: Ele permite camadas mais grossas e seguidas sem que a camada anterior “levante” ou rache.
- Cuidado com a Densidade: Verifique se o seu esmalte não está demasiado espesso (com pouca água). Muitas vezes, uma simples diluição resolve o problema.
- Limpeza da Peça: Antes de esmaltar, passe sempre uma esponja ligeiramente húmida para retirar o pó. O pó do biscoito atua como um desmoldante, impedindo que o esmalte se “agarre” corretamente.
- Calcinação: Se a sua receita tem muita argila ou zinco, substitua parte do caulim por caulim calcinado (que já passou pelo fogo e não retrai mais).
Se o problema surgiu em um esmalte antigo (após meses):
- Contaminação: Poeira ou sais nas peças biscoitadas podem repelir o esmalte. Dica: Enxágue as peças algumas horas antes da esmaltação.
- Evaporação: O esmalte pode ter ficado espesso demais pela perda de água.
- Moagem Excessiva: O uso constante de misturadores de alta rotação (furadeiras) pode diminuir o tamanho das partículas, tornando-as “mais plásticas”. Tente adicionar um pouco de caulim para equilibrar a massa.
Nesta peça, a aluna Leila Castelo resolveu com maestria um problema de retração crua (causada por excesso de camada) através de uma sobreposição estratégica em terceira queima. Utilizando seus conhecimentos em formulação, ela aplicou um esmalte de maior fluidez sobre o anterior, corrigindo a falha estética e técnica. Fica o alerta: esse sucesso só foi possível porque a Leila domina a química dos materiais; sobreposições sem estudo de viscosidade e compatibilidade podem comprometer a segurança do utilitário e a integridade do seu forno.
Conclusão: O craquelado em cru não é necessariamente um erro fatal, mas sim um sinal de alerta da química do seu material. Compreender a formulação, a relação entre a densidade do esmalte e a porosidade da sua argila é a chave para uma trabalho sem desperdícios.
E você? Já teve alguma experiência de “sucesso” com uma peça que parecia um deserto antes de entrar no forno e saiu perfeita? Partilhe conosco nos comentários!
Bibliografia:
BOGUSZEWSKI, Cleyton. Esmaltes Cerâmicos: Tecnologia e Prática. Editora Appris, 2019.
SOUZA, Santos. Tecnologia da Argila. Editora Edgard Blücher.
MORALES, G.; CHOTOLI, F. Introdução à Tecnologia Cerâmica. Editora Interciência.
HelSSELBERTH, John; ROY, Ron. Mastering Cone 6 Glazes: Improving Durability, Fit and Aesthetic. Glaze Master Press, 2002.
RHODES, Daniel. Clay and Glazes for the Potter. Krause Publications.
RITTAIN, Linda. The Ceramic Glaze Handbook. Lark Books.
Digitalfire (digitalfire.com)
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